19/06/2025
O avanço acelerado da inteligência artificial (IA) tem transformado profundamente diversos setores da sociedade, impulsionando inovações em áreas como saúde, transporte, comunicação e educação. No entanto, esse progresso também levanta preocupações crescentes sobre seu impacto ambiental, um tema central da cúpula internacional AI Action Summit 2025, realizada recentemente em Paris, que reuniu líderes mundiais e especialistas para discutir estratégias globais de regulação da IA.
Energia, água e lixo: os “resíduos invisíveis” da IA
Um dos principais pontos de atenção refere-se ao consumo energético provocado pelos data centers, infraestruturas essenciais para o funcionamento da IA. De acordo com um estudo da Deloitte, em 2023 essas estruturas foram responsáveis por aproximadamente 1,4% do consumo global de eletricidade. Com a contínua expansão da IA e das criptomoedas, a previsão é que esse número atinja 3% até 2030, equivalente ao consumo anual conjunto da França e da Alemanha.
Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), espera-se um aumento de mais de 75% na demanda elétrica dos data centers entre 2022 e 2026. Ainda mais alarmante, a consultoria Gartner alerta que, nesse ritmo, 40% dos centros de dados voltados para IA poderão enfrentar escassez de fornecimento de energia até 2027.
Outro impacto silencioso da IA é seu elevado consumo de água para resfriamento dos servidores. Pesquisadores das Universidades da Califórnia Riverside e do Texas Arlington calcularam que, até 2027, o consumo hídrico dos sistemas de IA poderá atingir 6,6 bilhões de metros cúbicos, quantidade de água suficiente para abastecer a Dinamarca durante seis anos.
A escassez de água já é uma realidade em muitas regiões, e essa demanda tecnológica pode agravar cenários críticos de crise hídrica, afetando populações vulneráveis e ecossistemas sensíveis.
Outro impacto direto da IA é a produção crescente de lixo eletrônico. Em 2023, foram geradas 2.600 toneladas de resíduos como chips e servidores. Projeções indicam que, até 2030, esse número pode chegar a 2,5 milhões de toneladas, equivalente a 13 bilhões de smartphones descartados.
Além dos impactos físicos e visíveis, é crucial abordar a responsabilidade ambiental corporativa no contexto da IA. As empresas que operam data centers ou desenvolvem soluções de IA podem ser responsabilizadas pelos danos ambientais que causam, com base no princípio do poluidor-pagador, consagrado no artigo 225, §3º, da Constituição Federal brasileira. Tal princípio implica responsabilidade objetiva, ou seja, independe de dolo ou culpa, bastando a comprovação do dano ambiental e do nexo de causalidade. Nesse contexto, é essencial que as empresas estejam atentas às suas práticas operacionais e busquem estratégias de mitigação de impacto ambiental para evitar passivos legais e reputacionais.
Além disso, a produção de servidores e chips exige a extração de metais raros, frequentemente por meio de processos altamente poluentes. A Agência Francesa de Transição Ecológica destaca que essa atividade agrava ainda mais os danos ambientais relacionados à IA, além de levantar questões éticas sobre as condições de trabalho e exploração de recursos naturais.
Coalizão para Inteligência Artificial Ambientalmente Sustentável
A Coalizão para uma Inteligência Artificial Ambientalmente Sustentável foi lançada em 11 de fevereiro de 2025 durante a Cúpula para Ação em Inteligência Artificial, realizada em Paris. A iniciativa é liderada pela França, pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e pela União Internacional de Telecomunicações (UIT), reunindo 91 parceiros, incluindo 37 empresas de tecnologia, 11 países e 5 organizações internacionais.
A coalizão visa fortalecer a posição da IA sustentável nas discussões globais sobre inteligência artificial, equiparando sua importância a temas como segurança e ética na IA. Diversas iniciativas foram lançadas no contexto da cúpula para construir uma base de conhecimento sobre IA e meio ambiente, destacando-se a publicação de um documento por uma comunidade de 36 cientistas, empresas e instituições públicas, identificando os desafios a serem superados para maximizar os efeitos positivos dos sistemas de IA enquanto se limita seu impacto ambiental.
Com essa coalizão, busca-se garantir que o desenvolvimento da inteligência artificial ocorra de maneira alinhada aos objetivos de sustentabilidade ambiental, promovendo uma abordagem equilibrada entre inovação tecnológica e responsabilidade ecológica.
Além disso, foi estabelecido um roteiro para a padronização do impacto ambiental da IA, definindo diretrizes para a avaliação ambiental da IA e identificando áreas de cooperação entre as principais organizações internacionais de padronização, como a ISO, a União Internacional de Telecomunicações (UIT) e o Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE). Essas diretrizes informarão investidores, bancos de desenvolvimento e autoridades locais sobre os elementos objetivos que definem um centro de dados energeticamente eficiente.
Embora iniciativas internacionais estejam em curso para padronizar o impacto ambiental da IA, ainda é incipiente a criação de normas ambientais específicas voltadas à tecnologia de IA. Considerando suas características únicas, como o uso intensivo de recursos em fases de treinamento e inferência, seria recomendável que organismos reguladores desenvolvessem legislações ambientais específicas, que considerem, por exemplo, métricas próprias para avaliar a pegada ecológica de modelos de linguagem, visão computacional e sistemas autônomos.
Embora a inteligência artificial ofereça oportunidades transformadoras, seu desenvolvimento traz consigo desafios ambientais substanciais. A crescente demanda por energia, água e materiais, bem como a geração de resíduos, impõe a necessidade urgente de regulações internacionais e inovações sustentáveis.
A cúpula AI Action Summit 2025 sinalizou um importante passo nessa direção, mas o compromisso com uma IA ambientalmente responsável deve ser fortalecido por meio da cooperação entre governos, setor privado, organismos internacionais e sociedade civil.
Ademais, o desenvolvimento de incentivos fiscais e regulatórios para IA sustentável pode representar uma estratégia eficaz para engajar o setor privado. Tais incentivos poderiam abranger desde benefícios tributários para empresas que adotem práticas de eficiência energética e logística reversa de equipamentos, até financiamentos favorecidos para projetos de IA alinhados a critérios ESG. Esse tipo de estímulo tem potencial de acelerar a transição para um modelo tecnológico mais compatível com os limites ecológicos do planeta.
Promover uma abordagem tecnológica alinhada aos princípios da sustentabilidade é essencial para garantir que o avanço da IA ocorra sem comprometer os recursos naturais e o equilíbrio ecológico global.
Mônica Costella,